Apenas 35% das empresas brasileiras já mapeiam riscos psicossociais, embora 98% considerem a saúde mental um tema relevante para a gestão de pessoas. O dado faz parte do relatório Tendência em Gestão de Pessoas 2026, do Great Place To Work (GPTW), e mostra a distância entre o discurso corporativo e a prática.
Segundo o levantamento, 63,3% das empresas já têm orçamento direcionado para ações de saúde mental. A proporção cai quando o assunto é identificar a origem dos problemas: pouco mais de um terço das organizações realiza algum tipo de mapeamento de riscos psicossociais.
Os números aparecem em um momento de afastamentos recordes. Dados do Instituto Nacional do Seguro Social mostram que mais de 546 mil trabalhadores deixaram o trabalho em 2025 por transtornos mentais e comportamentais, número mais alto já registrado no país. O total representa um em cada sete afastamentos concedidos pelo INSS no período.
Foi nesse cenário de afastamentos que a Norma Regulamentadora nº 1 passou a incluir, de forma explícita, os fatores psicossociais na gestão de riscos ocupacionais. O prazo de adaptação à norma terminou em maio de 2026.
Empresas reconhecem tema, mas avançam pouco
A pesquisa do GPTW ajuda a explicar por que a adequação à norma avança de forma desigual entre as empresas. Reconhecer a relevância da saúde mental, como fazem quase todos os respondentes, é uma etapa. Transformar esse reconhecimento em orçamento e estrutura é outra, e mais lenta.
A distância entre os 98% que veem o tema como prioridade e os 35% que já mapeiam riscos psicossociais indica que parte das organizações ainda está na fase de discurso, sem ter avançado para a gestão do risco.
Karen Scavacini, psicóloga e fundadora do Instituto Vita Alere, avalia que os dados confirmam um padrão observado na rotina das empresas. “Quando a saúde mental é tratada apenas como suporte, a empresa atua depois que o problema já se instalou. A nova abordagem exige olhar para a origem do risco, que muitas vezes está na forma como o trabalho é organizado”, afirma.
Mapeamento de riscos psicossociais ainda é exceção
Para Scavacini, o avanço no orçamento destinado ao tema é positivo, mas insuficiente sem o mapeamento dos riscos psicossociais, etapa que ainda está restrita a pouco mais de um terço das empresas.
É esse mapeamento, segundo a psicóloga, que permite identificar se o adoecimento está ligado a carga de trabalho, modelo de gestão, metas ou ambiente organizacional, em vez de tratar apenas os sintomas que aparecem depois.
NR-1 torna fatores psicossociais obrigatórios
Na avaliação de Scavacini, a atualização da norma trabalhista formaliza algo que já era percebido nas empresas. “A saúde mental não é um tema acessório, mas parte integrante da dinâmica produtiva. Reconhecer, prevenir e gerenciar esse risco passa a ser, cada vez mais, uma condição para a própria continuidade das organizações”, diz.
Os resultados do GPTW sugerem que o desafio das empresas agora é converter a percepção quase unânime sobre a saúde mental em estrutura, orçamento e processos de identificação de risco. Sem isso, o tema tende a continuar concentrado no discurso, enquanto os afastamentos seguem batendo recordes.
Mudança exige gestão, não só reação
Andre Purri, CEO da Alymente, descreve um padrão semelhante entre as empresas que atende. “O ponto é que ainda existe uma visão reativa dentro das empresas. Em geral, o investimento em saúde mental acontece depois que o problema já apareceu nos indicadores, quando o ideal seria tratá-lo como parte da estrutura de gestão e não como resposta a uma crise”, afirma.
A leitura de Purri reforça o que os números do GPTW já indicam: o avanço no discurso sobre saúde mental não acompanhou, até agora, o avanço no mapeamento de riscos psicossociais dentro das empresas brasileiras.
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